domingo, 8 de janeiro de 2017

Cantiga Dum Marginal do Século XIX


Não me pergunto onde vou
Os caminhos nunca acabam
Andorinhas de asa negra
Só vivem enquanto voam

De polícia já estou farto
Civil ou republicana
De presidente de estado
Bem fardado ou à paisana

Chapéu preto bem nos olhos
Residente em parte incerta
Trago bombinhas com mel
E os sentidos sempre alerta

Da natureza nascemos
Vivemos com a razão
Vendo luas e não pago
Imposto de transacção.









sábado, 7 de janeiro de 2017

...e então foram almoçar.


Lábia de vendedor.


Vendendo Banha-da-Cobra - O segredo para a felicidade.


É verdade já foi um conquistador e já esteve em toda a parte. É um Festival! Portugal? Zero ponto!


É um Festival!


É um festival!


Sépia


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Neste Natal as receitas vieram de longe, do tempo dos Avós, de locais tão sagrados como a cozinha das casas da aldeia ou do segredo do convento.

Neste Natal também aqui chegaram gulodices do Norte e Gulodices do Sul.

Relativamente a comezainas este Natal aqui por Lisboa foi de excessos. Em termos literários é certo!

     

Guardei no bolso de um colete, um pedaço de papel da toalha da mesa do almoço de algumas semanas atrás.

Acabei de o encontrar agora quando novamente vesti o colete. Já não sei o porquê do boneco, sei é que naquele dia se falou de muitas coisas e também de Tomar e de Setúbal. Onde comer em Setúbal: na "Cataplana"; e em Tomar na "Casa das Ratas", na "Casa Mitrena" ou no "Piri-Piri".

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

António Fonseca, António Fonseca, António Fonseca, António Fonseca, António Fonseca, ...a dizer os Lusíadas de Luiz Vaz de Camões.


Na escola me ensinaram como cortar os Lusíadas em pedaços. Como contar sílabas pelo tamborilar dos dedos. Mas não percebi bem o que era o Olimpo, nem o que contra nós tinha um cabrão chamado Baco. Tropecei em voz alta em palavras desconhecidas e esbocei sorriso seguro ao exclamar Vénus. Mas assim que acabou não mais quis saber de Camões a não ser por causa do Fado. Que o fado tem essa capacidade de prender quando cantando nos traz sonetos perfeitos do conhecimento profundo como os desse remoto e genial poeta chamado Luiz Vaz.

António Fonseca revelou que os Lusíadas são livro para ser ouvido.  De resto foi assim que a tradição nos informou que eles foram apresentados pela primeira vez: Foram ditos! Lidos pelo poeta ou ditos de cor como o fez e faz António Fonseca num prodígio físico de memória e generosidade.
A poesia é desde a antiguidade palavra dita, som, ritmo, musicalidade, mas nós tirando as canções, parece que nos esquecemos disso e só quando um escritor de canções ganha um Nobel de Literatura é que nos damos conta.

O livro deve-se à perseverança e à dedicação de António Fonseca e de muitas pessoas que individualmente apoiaram o projecto.
O livro está aí nas Livrarias. Traz 7 CD custa 40 euros e é uma obra soberba. 
Obrigado António Fonseca, Luiz Vaz de Camões teria gostado de se saber assim ressuscitado.









Alexandrov Ensemble 2016









sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A peça no "Salão dos sócios da SNBA 2016"







































A peça chama-se "Aqui e aí".






















A PEÇA TEM COLADAS TRÊS PEDAÇOS DE TEXTO NAS DUAS LATERAIS.
O TEXTO DE CALIGRAFIA DEMORADA, SUGERE SER RECOLHIDO DE UMA CARTA TALVEZ DA DÉCADA DE 60 DO SÉCULO XX. 


"Aqui sou apenas um servente mas não me deixam trabalhar de mãos nuas sem luvas, perdi os calos e não me lembro de ter tido as mãos tão macias."


"Aqui se tivesse os campos que aí tenho seria um homem rico."



"Aqui tenho falta das árvores que plantei e deixei aí. Sonho com os frutos desta época. Para aqui estou perdido deles e lembram-me as pedras e as flores.
Tenho saudade de vós e até do corpo extenuado e do parco viver que era o meu aí.
Aqui como aí trabalho muito e trabalho bem e com gosto e muito me apreciam, mas o que faço com as minhas mãos macias e bem calçadas não me traz sossêgo ao coração entorpecido nem me apazigua a alma áspera."


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

José Afonso canta A Epígrafe para a Arte de Furtar de Jorge de Sena


Jorge de Sena dizendo alguns dos seus poemas.

1. Felicidade
2. Humanidade
3. Ode para o Futuro
4. Glosa à chegada do Inverno
5. Ó doce Perspicácia
6. As Evidências-Soneto XI
7. Epígrafe para a Arte de Furtar
8. A Paz-I,II,III,IV,V
9. Quem a tem
10. Uma pequenina luz
11. Como queiras Amor...
12. Camões dirige-se...
13. Anósia
14. Requiem de Mozart-I,II,III,IV
15. Missa Solene de Beethoven
16. Sonetos da visão perpétua I,VII
17. Os ossos do Imperador
18. Madrugada
19. Tu és terra...
20. Conheço o Sal...


Jorge de Sena - "No país dos sacanas"

“Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos o são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para fazer funcionar fraternalmente
a humidade da próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então neste país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.”

Jorge de Sena
10/10/73

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

QUERO-TE!




The guilty undertaker sighs
The lonesome organ grinder cries
The silver saxophones say I should refuse you
The cracked bells and washed-out horns
Blow into my face with scorn
But it’s not that way
I wasn’t born to lose you

I want you, I want you
I want you so bad
Honey, I want you

The drunken politician leaps
Upon the street where mothers weep
And the saviors who are fast asleep, they wait for you
And I wait for them to interrupt
Me drinkin’ from my broken cup
And ask me to
Open up the gate for you

I want you, I want you
I want you so bad
Honey, I want you

How all my fathers, they’ve gone down
True love they’ve been without it
But all their daughters put me down
’Cause I don’t think about it

Well, I return to the Queen of Spades
And talk with my chambermaid
She knows that I’m not afraid to look at her
She is good to me
And there’s nothing she doesn’t see
She knows where I’d like to be
But it doesn’t matter

I want you, I want you
I want you so bad
Honey, I want you

Now your dancing child with his Chinese suit
He spoke to me, I took his flute
No, I wasn’t very cute to him, was I?
But I did it, though, because he lied
Because he took you for a ride
And because time was on his side
And because I . . .

I want you, I want you
I want you so bad
Honey, I want you




domingo, 30 de outubro de 2016

palimpsesto





Desisti do êrro e deixei de usar borracha. Não falo do êrro de Leonardo que desenhava propositadamente os componentes das suas máquinas de forma  invertida. De facto não há Êrro, tudo faz parte do percurso. Escrevo por cima, desenho por cima. Deliberadamente escolho cadernos e livros velhos de outros, ou mesmo meus, de um outro tempo. Mesmo quando criamos, criamos sempre sobre alguma coisa feita antes. A obra nunca está acabada. Tudo é construção permanente, e quando não formos nós a fazê-la será o tempo.

Lenço laço, laço lasso. A lógica da batata crua, em rodelas, de manhã até ao deitar.


sábado, 22 de outubro de 2016

Que tenhas no teu pensamento a suavidade da paz e a fúria da raiva para que ambas se alimentem e te alimentem a mão criativa e o espírito inquebrantável que te religa com o universo e o cosmos. Que o teu corpo tenha a tenacidade e a ruderalidade natural e que o sofrimento te desobrigue e te seja alheio.






Que tenhas no teu pensamento a suavidade da paz e a fúria da raiva para que ambas se alimentem e te alimentem a mão criativa e o espírito inquebrantável que te religa com o universo e o cosmos. Que o teu corpo tenha a tenacidade e a ruderalidade natural e que o sofrimento te desobrigue e te seja alheio.



sábado, 15 de outubro de 2016

Joan Baez canta Sad-Eyed Lady Of The Lowlands de Bob Dylan.





With your mercury mouth in the missionary times,
And your eyes like smoke and your prayers like rhymes,
And your silver cross, and your voice like chimes,
Oh, do they think could bury you?

With your pockets well protected at last,
And your streetcar visions which you place on the grass,
And your flesh like silk, and your face like glass,
Who could they get to ever carry you?
 
Sad-eyed lady of the lowlands,
Where the sad-eyed prophet says that no man comes,
My warehouse eyes, my Arabian drums,
Should I put them by your gate,
Sad-eyed lady, should I wait?
 
With your sheets like metal and your belt like lace,
And your deck of cards missing the jack and the ace,
And your basement clothes and your hollow face,
Who among them can think he could outguess you?
With your silhouette when the sunlight dims
Into your eyes where the moonlight swims,
And your match-book songs and your gypsy hymns,
Who among them would try to impress you?
 
Sad-eyed lady of the lowlands,
Where the sad-eyed prophet says that no man comes,
My warehouse eyes, my Arabian drums,
Should leave them them by your gate,
Or, sad-eyed lady, should I wait?
 
 
 
The kings of Tyrus with their convict list
Are waiting in line for their geranium kiss,
And you wouldn't know it would happen like this,
But who among them really wants just to kiss you?

With your childhood flames on your midnight rug,
And your Spanish manners and your mother's drugs,
And your cowboy mouth and your curfew plugs,
Who among them do you think could resist you?
 
Sad-eyed lady of the lowlands,
Where the sad-eyed prophet says that no man comes,
My warehouse eyes, my Arabian drums,
Should I leave them by your gate,
Or, sad-eyed lady, should I wait?
 
 
 
Oh, the farmers and the businessmen, they all did decide
To show you the dead angels that they used to hide.
But why did they pick you to sympathize with their side?
Oh, how could they ever mistake you?

They wished you'd accepted the blame for the farm,
But with the sea at your feet and the phony false alarm,
And with the child of a hoodlum wrapped up in your arms,
How could they ever, ever persuade you?
 
Sad-eyed lady of the lowlands,
Where the sad-eyed prophet says that no man comes,
My warehouse eyes, my Arabian drums,
Should I leave them by your gate,
Or, sad-eyed lady, should I wait?
 
 
 
With your sheet-metal memory of Cannery Row,
And your magazine-husband who one day just had to go,
And your gentleness now, which you just can't help but show,
Who among them do you think would employ you?

Now you stand with your thief, you're on his parole
With your holy medallion which your fingertips fold,
And your saintlike face and your ghostlike soul,
Oh, who among them do you think could destroy you?
 
 
 
Sad-eyed lady of the lowlands,
Where the sad-eyed prophet says that no man comes,
My warehouse eyes, my Arabian drums,
Should I leave them by your gate,
Or, sad-eyed lady, should I wait?
 
 
 
 
 
 

Bob Dylan - Ainda não escureceu mas para lá caminhamos.


Not Dark Yet

Written by: Bob Dylan 
 
Shadows are falling and I’ve been here all day
It’s too hot to sleep, time is running away
Feel like my soul has turned into steel
I’ve still got the scars that the sun didn’t heal
There’s not even room enough to be anywhere
It’s not dark yet, but it’s getting there

Well, my sense of humanity has gone down the drain
Behind every beautiful thing there’s been some kind of pain
She wrote me a letter and she wrote it so kind
She put down in writing what was in her mind
I just don’t see why I should even care
It’s not dark yet, but it’s getting there

Well, I’ve been to London and I’ve been to gay Paree
I’ve followed the river and I got to the sea
I’ve been down on the bottom of a world full of lies
I ain’t looking for nothing in anyone’s eyes
Sometimes my burden seems more than I can bear
It’s not dark yet, but it’s getting there

I was born here and I’ll die here against my will
I know it looks like I’m moving, but I’m standing still
Every nerve in my body is so vacant and numb
I can’t even remember what it was I came here to get away from
Don’t even hear a murmur of a prayer
It’s not dark yet, but it’s getting there 


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O Nóbél que nunca foi nobel.

Então só agora é que repararam que deram um prémio Nobel de literatura ao Churchill porque nessa altura ainda não tinham o atrevimento de lhe dar um prémio Nobel da paz como fizeram ao Obama.

E por favor não se esqueçam que a poesia deve ser cantada, ou pelo menos dita em voz alta como a do Camões. 
 António Fonseca diz os Lusíadas




domingo, 9 de outubro de 2016

Luvas 4

  

'   Aqui se tivesse os campos que tenho aí seria um homem rico.   '























Luvas 3



Aqui tenho falta das árvores que plantei e deixei aí.
Lembro-me dos frutos deste tempo.
Para aqui estou perdido deles e lembram-me as pedras e as ervas e as flores. 
Sonho convosco. 
Tenho saudade de vós, e até do corpo extenuado e do parco viver que era o meu aí.

Aqui como aí trabalho muito! E trabalho bem e com gosto e muito me apreciam. Mas o que faço com as minhas mãos macias e bem calçadas não me traz sossêgo ao coração entorpecido, nem me apazigua a alma áspera.


 

Luvas 2



Aqui sou apenas um servente
mas não me deixam trabalhar
de mãos nuas, sem luvas.
Perdi os calos e não me lembro
de ter tido as mãos tão macias.

Luvas.