domingo, 18 de junho de 2017

Memória de combate a um fogo.



Quando o lume vem, há um rugido no ar: O estalar dos lenhos, o silvo das labaredas, o colapsar das ramadas, o ferver das seivas… O grito lancinante de toda a natureza parece um interminável trovão. Ainda longe sente-se o calor; àquele troar intenso acresce o ar denso e quente, há dificuldade em encher o peito de ar e um frenesim apodera-se do corpo e impele a fuga. Depois os olhos secam e semicerram-se com dificuldade. O fumo sufoca e perde-se a dimensão das coisas. Perde-se a noção de distância e orientação. Não há cor e tudo parece sanguíneo e cinzento. Tudo é ardor e brasa a garganta queima, os pulmões doem, os olhos choram, a língua sêca arranha os lábios. Grita-se pelos companheiros à direita e à esquerda, respondem sucessivamente um e outro e outro, estendemos as mãos para nos tocarmos. Olha-se para o alto, mas não se vê o céu, os turbilhões negros enrolam o ar num vendaval que dificulta estar erguido e caminhar. Uma dor intensa na omoplata como um ferrete e novamente e outra vez… Abel vê se tenho as costas arder? – Não, nada! Tinhas umas vespas pousadas mas já foram. Passam por nós perdizes, coelhos, seres rápidos impossíveis de identificar. Gritam longe: Todos para trás, já chega! Já chega! P’ra trás! P’ra trás!

Recuámos dos 30 passos de campo rapado roçando ainda giestas aqui e ali, ceifando estevas, o corpo febril ensopado em suór. As labaredas estacam, saltam faúlhas e tições, sachamo-las, atiramos-lhe terra. As línguas vivas de fogo sobem a encosta e passam ao lado das casas da aldeia. O Povo está salvo.

tristeza profunda


tristeza profunda


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Viva Bituca!


ALÍPIO DE FREITAS- MUITO PARA APRENDER COM ELE





Baía de Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza

Em Maio de mil setenta
Numa casa clandestina
Com a companheira e a filha
Caiu nas garras da CIA

Diz Alípio à nossa gente:
"Quero que saibam aí
Que no Brasil já morreram
Na tortura mais de mil

Ao lado dos explorados
No combate à opressão
Não me importa que me matem
Outros amigos virão"

Lá no sertão nordestino
Terra de tanta pobreza
Com Francisco Julião
Forma as ligas camponesas

Na prisão de Tiradentes
Depois da greve da fome
Em mais de cinco masmorras
Não há tortura que o dome

Fascistas da mesma igualha
(Ao tempo Carlos Lacerda)
Sabei que o povo não falha
Seja aqui ou outra terra

Em Santa Cruz há um monstro
(Só não vê quem não tem vista)
Deu sete voltas à terra
Chamaram-lhe imperialista

Baía da Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Fernando Pessoa nasceu no dia de hoje: Fernando António ganhou seu nome como uma predestinação.

Chamaram-lhe Fernando porque Fernando se chamava Santo António antes de ser Santo.
Chamaram-lhe António porque esse era o nome que o homem chamado Fernando de Bulhões que viria a ser conhecido como Santo António escolheu como voto de transcendência na sua fé. Fernando de Bulhões queria seguir o caminho que antes dele um Santo de nome Antão (António) fez, ao resistir ao deserto, à privação e à agonia do Ser. 


Fernando Pessoa fez também o seu caminho atravessando o deserto. Teve os seus delírios, as suas dores e privações.
Foi asceta e místico como os patronos do seu nome. 
Como Santo António morreu antes de tempo, e coincidentemente nas causas: Morreu Santo António de hidropisia, talvez por doença no fígado ou no pâncreas. Morreu Fernando Pessoa de crise hepática ou de pancreatite.

Quando comecei a ler Fernando Pessoa pelos meus 16 anos, a leitura da sua poesia não era ainda uma obrigação escolar, o seu estudo estava reservado para mais tarde e só para quem ía para a universidade para os cursos de letras. 
O interesse pela obra revelou-se livre dos constrangimentos da regra e da interpretação normalizada. 
Descobri Fernando Pessoa à medida que me ía descobrindo na minha adolescência, e assim com ele cresci.
Ligação tão forte levou ao interesse pela imagem da figura humana do próprio poeta, pela imagem de uma pessoa com tantas personas. Depois me interessei pela data de nascimento, pelo tempo em que viveu, pelos anos que viveu. 
Não me esqueço até hoje do espanto e da impressão de dó que tive quando percebi que uma das fotografias que eu conhecia bem, tirada no seu último ano de vida, mostrava um homem que tinha 47 anos e no entanto, um homem precocemente envelhecido a quem eu tinha atribuído antes 60 ou 65 anos. 
Até hoje faz-me impressão essa fotografia e sempre que pinto ou desenho a sua imagem, é a imagem desse último ano, como se assim esse ano pudesse ser prolongado eternamente.



Santo António nasceu com o nome de Fernando de Bulhões.

Eu gosto do Santo António e da alegoria que é o Sermão de Santo António aos peixes de Arímino como relata o Padre António Vieira. É claro que Santo António não é para nós ingratos de Lisboa o Doutor da língua Bendita que arrependia hereges e convertia pagãos. Para nós continua consertando bilhas, encontrando objectos perdidos, regulando namoros, arranjando casamentos. Coisas pequenas com a dimensão que os eruditos acham ser a dimensão do entendimento popular.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Oração ao Tempo - Caetano Veloso


 

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo

 
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo
Quando o tempo for propício
Tempo Tempo Tempo Tempo
 

 

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo Tempo Tempo Tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo Tempo Tempo Tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Apenas contigo e migo
Tempo Tempo Tempo Tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo Tempo Tempo Tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo Tempo Tempo Tempo

 

sábado, 3 de junho de 2017

Não é salvar o planeta; estúpido!




Não tens de salvar o planeta; estúpido! Tens é de salvar o ambiente em que vives. O planeta já existia antes de ti; bandido! O planeta continuará a existir depois de ti; alarve. Os dinossauros que andaram por onde andas, extinguiram-se há 65 milhões de anos, mas conseguiram permanecer durante 165 milhões de anos, mais milhão menos milhão. E tu ganancioso? que andas por cá há um milhão de anos? quanto tempo mais conseguirás viver? 

quinta-feira, 1 de junho de 2017

A BILHA DE GÁS - Poema de Armando Silva Carvalho





É o som de uma bilha sem gás
E isso acalma-me.
Não vejo o recipiente
Mas sei que aquele ruído não me engana
E que por enquanto posso
Confiar no mundo.

Uma bilha de gás doméstico
Para refeições, banhos e pequenos prazeres
Do corpo de uma pequena burguesia
Medrosa de todos os terrorismos
Que vêem nas televisões.

Nunca gostei dessa gente maciça
E sempre pronta a apontar com o dedo
O que não está nem fica nem merece nem sabe
O bem que Deus nos atribui
Com o dom da vida.

Conviverei com ela até ao dia do juízo
Não tive outro destino senão ouvir esses profetas
Medianos no patamar da escada
Ao jantar na província à vista da novela
Babada em desejos avulsos
Ao limpar os pés
Da morte.

Estendo-lhes a mão
E enceno uma comédia diária
E leviana que chega para o riso das artroses
E empurra os malefícios da guerra
Para o tempo virtual
Da sobremesa.

Cruzamos a nossa vida
Com inimigos do peito cegos o dia e a noite
Com outras alucinações
Que não cabem em bilhas de gás
Ou de outra natureza
Mais explosiva.

E a minha existência
Alonga-se na leitura dos textos
Na cobardia amável das teclas transformistas
Na doçura da chuva nas janelas
Na tarde que aparece
Sem surpresa.











Armando Silva Carvalho - O QUE FOI PASSADO A LIMPO


sexta-feira, 26 de maio de 2017

Azulejo no leilão.

Há dias descobri que um azulejo meu tinha sido vendido num leilão. Pintei-o no ano de 2001. Nele escrevi um rol de perguntas. Não me parece hoje que sejam perguntas a que se tenha de dar resposta.



               Em que pensas quando não pensas em Nada?
               Vês o azul ou só o silêncio ecoa dentro de ti? 
               Sentes o tempo ou és tu o tempo sem começo ou fim?
               És tu ainda?


quinta-feira, 11 de maio de 2017

O medo e a máscara.

 O desenho a caneta nasceu primeiro em papel, num dos cadernos de notas que propositadamente mantenho em simultâneo.


Representando uma espécie de transparência, como numa radiografia, desenhei de memória a figura de um gigantone, de maneira a ser possível ver no interior o seu carregador.
A primeira vez que vi estas figuras, foi em criança num desfile carnavalesco. Era muito pequeno e não terei percebido logo que aquela aterradora figura gigante era uma paródia que tinha no seu interior uma pessoa que a transportava.
Foi com espanto que vi surgir uma abertura até aí coberta por um véu negro, e através dela aparecer um olhar escrutinador. Até hoje tenho viva essa sensação de surpresa e de alguma forma revivo a mesma emoção sempre que ocorre alguma revelação e percebo alguma coisa nova. Há vezes que descubro o que todos sabem, outras o que muitos sabem. Mas há outras que descubro o que ainda ninguém tinha percebido.

 Agora durante um daqueles períodos em que estava a olhar para o quadradinho em branco sem assunto para pintar, desfolhei o livro de apontamentos onde tinha desenhado inicialmente aqueles bonecos e retomei o olhar desenhando no azulejo com o pincel.

A chacota não resistiu à sua segunda queima e cindiu a minha intenção de retomar esse olhar.
O olhar que pintei no azulejo não é o olhar de quem olha para fora. Talvez seja antes o olhar de quem no exterior toma consciência do que está no âmago daquilo que teme. Talvez seja o olhar da perda de inocência. 





segunda-feira, 8 de maio de 2017

Azulejo avulso e Azulejo de figura avulsa.



Os azulejos avulsos são aqueles que fazem parte de um, ou de vários painéis de dimensões desconhecidas. 
Independentemente da sua leitura ser prejudicada, é por vezes possível ela poder ser ainda apreendida se o azulejo identificar um detalhe que consiga ainda ter expressão sem o resto do conjunto. É o caso de detalhes florais, do rosto de querubins, ou de azulejos de repetição. Na maioria das vezes estes azulejos acabam por não mostrar figura, ou padrão identificável e só são salvos das montureiras de entulho porque correspondem à dimensão necessária para colmatar alguma falha de azulejos em outro painel, prevenindo a ruína ou a depredação dos ainda expostos.




Azulejos de figura avulsa, são azulejos que apresentam uma imagem integral, que vive autónoma. 


 
Seja a sua narrativa um discurso compreensível ou não. Seja ela ilustração de história feita ou de episódio por contar. 

Por vezes com os azulejos em presença pode haver dúvida se o azulejo pertence a um conjunto ou se é figuração individual. Geralmente os azulejos de figura avulsa apresentam algum tipo de enquadramento ou moldura,


ou têm marcas de limitação que os pode relacionar com outro azulejo idêntico que seja posto lado a lado,



ou exibem algum tipo de marcação ou assinatura.


 Ainda assim há azulejos que não se revelam se pertencem a algo maior que o que a sua quadratura parece mostrar.